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por Marcus Vinicius de Azevedo Braga

 

Relendo a missiva


No distante 1964, a Federação Espírita Brasileira-FEB lançou a obra Estante da vida, psicografia de Francisco Cândido Xavier e escrita pelo espírito que utiliza o pseudônimo de Irmão X. Uma obra ímpar, mas destaca-se para fins deste artigo a crônica de número 33, intitulada “Missiva fraterna”.

Nela, o autor se reporta ao médium pelo qual ele se comunica habitualmente, para lhe dar conselhos, em especial no sentido de que a mediunidade não o torna melhor do que os outros, portador de privilégios, e que cabe a ele enfrentar os desafios cotidianos de qualquer espírito encarnado, isso de forma bem resumida. Vale a leitura do texto original.

Apesar de terem transcorridos mais de seis décadas desse texto, no atual 2024 se vê que a sua essência não foi aprendida ainda. O texto busca humanizar o médium e a mediunidade, uma atividade de construção do processo evolutivo como outras, mas insistimos em colocá-la num pedestal, ressuscitando antigas práticas de povos ancestrais em relação à prática mediúnica.

E pululam médiuns semidivinizados, credenciados a serem porta-vozes inquestionáveis, alheios a qualquer escrutínio e, ainda, seguidos por pessoas sequiosas de curas ou mensagens reveladoras, para aplacar nossas dores ou dúvidas existenciais.

Muitos desses não são nem legítimos em seus fenômenos e outros exploram a boa-fé das pessoas em interesses econômicos, e achamos, no Espiritismo, que esses problemas com a prática mediúnica só se encontram do lado de fora, fazendo-nos baixar ainda mais a precaução diante desses problemas, em uma pretensa sensação de segurança. 

A humanização do médium trazida na mensagem do Irmão X tem esse curioso intertexto, de um espírito que relembra a fragilidade do médium, mas que ao mesmo tempo nos relembra a fragilidade de todos os médiuns, e que colocar as fichas de forma acrítica em um medianeiro pode arrastar todos nós ao fosso da ilusão.

Desejamos um canal direto e confiável das orientações do Alto, e vemos nesses médiuns esse papel, o que traria exclusivismos distantes do que propõe a discussão espírita, que, pelo contrário, traz uma postura um tanto indigesta de crer com uma fé raciocinada, algo por vezes oneroso demais em um mundo onde andamos cansados e queremos algo mais simples e mastigado.

A busca por santos de pés-de-barro não é uma exclusividade nossa, dos espíritas, ainda que devesse ser estranha a nós. Ora, mas então não podemos confiar em ninguém? diriam alguns. Na verdade, o problema é confiarmos em tudo que aparece de forma acrítica e isso é bem diferente de ser um incrédulo, sendo apenas uma pessoa prudente.

Por isso Kardec preconizava o estudo sistemático aos médiuns ostensivos ou não, como forma de emancipação nessa trajetória de autoconhecimento no rumo da evolução. Menos hierarquia, menos endeusamentos, menos verdades absolutas. Essa é a essência do Espiritismo e que nos distingue de outras denominações.

Mas, se quisermos, ao contrário das verdades límpidas da missiva fraterna, continuar acreditando que os médiuns são seres à parte da Criação, beatificados, que funcionam como portais absolutos das verdades divinas, encontraremos muitas vozes a fazer coro, olhando de cara feia para essa discussão, dizendo ser qualquer questionamento falta de caridade, abaixando escudos para uns e erguendo muros para outros.

Felizmente, a realidade sempre bate à porta, mostrando que os médiuns são humanos com suas fragilidades naturais, e trazendo a mágoa da decepção para quem via ali uma fração da divindade. É preciso reler a “Missiva fraterna” sessenta anos depois, não como uma releitura, mas como um reforço de leitura, pois a lição ainda está distante.


 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita